quinta-feira, 3 de abril de 2008

Museu da Pedra em Cantanhede


Poema da pedra lioz

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na brutidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca… truca…
Lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada românica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.

Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca… truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.

António Gedeão


Este poema está exposto, com destaque, no Museu da Pedra em Cantanhede, um museu muito pedagógico sobre a pedra, desde as formações geológicas da região até aos produtos finais, com realce para os escultóricos, passando pelas patologias da pedra e pelas ferramentas do trabalho, tantas vezes anónimo, da transformação do informe oculto em delicada forma revelada.



Lioz é o calcário brando da zona de Lisboa com o qual foram construídos quase todos os seus monumentos, desde a Torre de Belém à Sede da Caixa Geral de Depósitos. O calcário da zona de Cantanhede é a chamada Pedra de Ançã extraída nas pedreiras de Ançã, Portunhos e Outil e que moldou a face arquitectónica e escultórica de Coimbra no século XVI.

[publicado no blogue Universos Assimétricos]

quarta-feira, 19 de março de 2008

À luz de Delft

O que vou contar começou na semana a seguir a um Natal, ao chegar a casa aí pelas cinco da tarde. Depois de me pôr à vontade, fui lanchar. Três fatias de pão com compota de ginja e um copo de leite morno. Pus tudo num tabuleiro e fui comer para a sala, enquanto via uma gravação do Dr. House.

Foi já no fim do lanche que o vi: - o carteiro de Pablo Neruda, como eu me lembrava dele no filme, estava mesmo atrás da mulher que lê uma carta junto a uma janela aberta, na reprodução pintada de Vermeer que tenho por cima da escrivaninha. Primeiro, fiquei muito parado sem saber bem o que pensar. Depois, observei a compota e cheirei o leite – pareceram-me em bom estado!
Levantei-me e mirei-o de perto. Estava com aquele ar ingénuo e satisfeito de quem finalmente sabe o que são metáforas. E estava bem implantado na camada cromática, como se tivesse sido pintado ao mesmo tempo que a mulher. Esquecendo o anacronismo de vestuário, não ficava mal de todo no quadro. Aparentemente, tinha sido ele que tinha trazido a carta à jovem holandesa de Vermeer.
«Bem», pensei, «é melhor não dizer nada a ninguém, sem dormir sobre o assunto». E foi isso que fiz no sofá. A meio do CSI.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi olhar para o quadro. O carteiro já lá não estava. Fiquei aborrecido. Já começara a pôr a hipótese de mostrar o fenómeno aos amigos. Logo a seguir, fiquei preocupado. O que quer que tivesse perturbado a minha percepção devia estar em mim e podia ser um grave problema de saúde.
Resolvi fazer umas pesquisas na Net sobre alterações de percepção. Um site francês dizia que níveis elevados de açúcar no sangue podem provocar alucinações. Nessa noite, dormi mal.

No dia seguinte via-se uma alcoviteira de Murillo do lado de fora da janela a falar com a mulher da carta. E nos outros dias sucederam-se outras imagens de menor dimensão: um jarrão azul com flores de Cézanne sobre a mesa, um gato de Manet sobre a carpete, umas mãos de Rodin na janela. Eu sei lá!

Isto, apesar de eu ter começado a conter-me nas sobremesas e a lanchar só tostas secas e água.

Entretanto fui ao médico. Impôs-me uma dieta rigorosa sem açúcares e receitou-me uns comprimidos de lítio. Diz que devo ter uma predisposição genética visionária que foi potenciada pelos excessos da quadra natalícia. Para eliminar todos os factores desencadeantes, aconselhou-me ainda a parar com quaisquer leituras sobre arte durante uns tempos.
O que é certo é que passadas umas semanas deixei de ver imagens estranhas a perturbar o recolhimento da holandesa de Vermeer a ler a sua carta.

Uns três meses depois, quando já pensava que o meu problema estava sanado, certa manhã dei pela falta da própria mulher do quadro. Calculam como fiquei! O coração acelerou-se e quase entrei em pânico. Se antes era açúcar, o que seria agora?!
Telefonei logo para o meu médico que também se mostrou alarmado e me disse que eu, provavelmente, devia ter abusado da dieta. Mandou-me tomar logo um pacote de açúcar dissolvido em água e que fosse ao consultório dele no dia seguinte. Tomei o que ele mandou e fiquei pensativo a olhar para o quadro deserto. Que intrigante, esta situação!
Então reparei nuns pequenos vultos na praça que se vê através da janela do quadro e que antes não estavam lá. Eram-me familiares. Apesar de pequenos, não deixavam margem para dúvidas: eram as silhuetas da holandesa desaparecida, de braço dado com o carteiro de Pablo Neruda!

No dia seguinte já não fui ao médico. Nunca mais lá voltei. Percebi que o Amor é mais forte que quaisquer dietas ou comprimidos. E encontra sempre o seu caminho.


(Foto do quadro por alturas da aparição do gato de Manet)

[Publicado noutra versão no blogue Universos Assimétricos]

terça-feira, 11 de março de 2008

Experiência transcendente


Este conjunto escultórico é do magistral Bernini e encontra-se numa pequena igreja de Roma. Chama-se O êxtase de Sta. Teresa (1647-1652) e representa o episódio de amor místico experimentado por Santa Teresa de Ávila, também conhecido por «Transverberação de Sta. Teresa». Foi a própria que relatou o seguinte:

«Ao meu lado esquerdo apareceu um anjo em forma corporal. Não era alto mas baixo e muito belo. E a sua face estava tão afogueada (…). Vi na sua mão um longo dardo de ouro, na ponta do qual julguei ver uma pequena chama. Pareceu-me que o fazia entrar de tempos a tempos no meu coração e que ele me perfurava até ao fundo das entranhas; quando o retirava, parecia-me que as arrancava também e me deixava toda abrasada com um grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer e, no entanto, a doçura desta dor excessiva era tal, que era impossível querer vê-la terminada, e a alma já não se contentava senão com Deus. A dor não era física, mas espiritual, se bem que o corpo aí tivesse a sua parte. Era uma tão doce carícia de amor entre a alma e Deus (…)».

Como a muitos analistas contemporâneos, não escapou a Bernini a vertente do amor sensual aliado ao amor místico. É bem evidente o abandono físico da freira perante o anjo, como o abandono da mulher excitada perante o homem amado. O rosto do anjo reflecte aquela doce alegria que qualquer homem experimenta no momento anterior à posse da mulher rendida. O dardo não pode ser mais simbólico na sua rigidez fálica e na sua ponta penetrante. O gesto delicado da mão esquerda do anjo a levantar o hábito descomposto da freira, como quem afasta uma última peça de roupa íntima, eleva a sensualidade do conjunto a um nível nunca esperado num altar.
Mas que melhor lugar para celebrar a experiência transcendente e sublime de um orgasmo?

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Arte Islâmica

O poder muçulmano dominou partes do território que actualmente constitui o de Portugal desde cerca de 711 até meados do séc. XIII – mais de 500 anos.
A influência das crenças e dos outros aspectos da mentalidade gera formas e estéticas próprias e a estada muçulmana na Península não foi excepção. A arte muçulmana tem características próprias e criou também alterações de gosto em quem a ela foi exposto. A chamada Arte Islâmica não se limita à produzida durante aquele período mas também à produzida posteriormente por artífices muçulmanos, que por cá se mantiveram ou na próxima Granada, ou até por artistas cristãos que souberam corresponder às encomendas de quem estava seduzido por aquelas formas ou queria usá-las como símbolo de luxo ou exotismo.

Mértola é a povoação portuguesa que mais vestígios contém da estada muçulmana. As minas próximas e o contacto fluvial com o Mediterrâneo mantiveram-na com alguma importância durante séculos e no tempo de D. Afonso Henriques chegou mesmo a ter um certo protagonismo político no campo muçulmano. Hoje, Mértola tem vários pólos museológicos dedicados à presença islâmica (mas não só) e toda ela está bastante virada para essa recente vocação turística.

As palavras seguintes podem-se ler numa parede do museu islâmico de Mértola e denunciam a orientação moderna do arqueólogo Cláudio Torres – um dos artífices da actual visibilidade de Mértola – de não olhar apenas para os cabeçalhos da História:

A história é feita de muitas memórias. O documento escrito, nas suas linhas e entre-linhas, pretende mostrar à posteridade os feitos dos poderosos, os registos de uma história encomendada. Aos oprimidos, sem escrita, resta o efémero de um gesto ou acorde musical, resta o artefacto humilde de todos os dias, a panela escura que esbeiçou de cansaço ou o candil onde o azeite secou.
Neste nosso museu vamos contar a história possível dos vencidos, dos camponeses, pescadores e artesãos de Mértola, a quem chamaram mouros, e que habitaram e ainda habitam as casas dos seus antepassados.


Entretanto, mas só até 2 de Março, está patente na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, ao Saldanha, a exposição de arte islâmica Olhares cruzados sobre Arte e Islão com comentários separados de um arqueólogo, um historiador, uma historiadora de arte e um teólogo do Islão mas cujas palavras não pude fotografar. Mostro, no entanto, esta imagem de uma peça lá exposta que encontrei na Net, a fim de vos aguçar o interesse…

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Condição de mulher



Artur Amieiro, Condição de mulher, Óleo s/ tela, 60x40 cm., 2002. [cópia de Modigliani, Nu sentado, 1916]


«A beleza que vem da tristeza de se saber mulher» - Vinicius de Morais.
«Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta» - Anais Nin.

[A publicar no blogue Universos Assimétricos]