domingo, 9 de dezembro de 2007

Abrir as Pernas para ver um Livro Publicado

Meus senhores:

Recebi recentemente, via e-mail, um convite para publicar um livro, por intermédio de uma editora conhecida de todos nós. O editor propunha-se a publicar uma obra inédita (não manifestando qualquer interesse sobre esta ou aquela obra, isto é, uma qualquer), tendo o autor que satisfazer as seguintes condições:
Assinar contrato de exclusividade com a mesma;
Tomar a seu cargo todas as despesas com o livro, incluindo taxa proposta pela editora (por ora chamemos-lhe lucro);
Não receber quaisquer direitos de autor;
Ficar com vinte livros em seu poder, os quais poderia vender livremente (não me admira que seja sem recibo);
Disponibilizar-se para eventuais lançamentos do livro na praça pública;
Outras de menor importância.

Apesar da matemática não ser o meu forte, com umas regras de três simples cheguei à brilhante conclusão de que a proposta era um ultraje disfarçado sob a forma de convite!

Muitos escrevem para a gaveta, outros queimam o que escrevem, não satisfeitos com a sua produção, mas todos têm o sonho válido, porque parte da nossa condição humana, de chegar à esfera pública, através de um livro editado (para não falar do desejo aparentemente oculto de reconhecimento). Ora, o que se põe aqui em causa não será esta fraqueza de espírito que toca a todos, enquanto seres sociais que somos. Questiona-se sim, uma atitude tirana da parte de senhores ignorantes, com uma suposta editora nas costas, Mefistófeles que são, tentando o indivíduo e a sua carteira.
Acalmem-se as hostes pois, não quero com isto dizer que não exista um grande escritor em cada um de nós, à espera de se revelar a qualquer momento, mas dado o carácter despreocupado de análise do que é publicado através destas mesmas "editoras", não posso senão dizer proverbialmente "quanto mais depressa mais devagar". Não me parece que esta satisfação imediata, e a curto prazo, de ter um livro publicado, que muitas das vezes não chega às livrarias, seja o caminho mais inteligente a seguir. Mas somos seres dotados de livre arbítrio e, como Faustos, temos todo o direito de decidir qual o caminho a seguir, ainda que posteriormente seja tarde demais.

Meus senhores: encher os bolsos a patrões, a igrejas, a políticos e agora, a pretensos editores?! Sejamos inteligentes. Uma coisa é certa. Mais vale para a gaveta que sempre alimenta o espírito, além de que o mundo não acaba por isso. Pelo menos sempre se pode ir alterando o que se tem, rebuscar mais tarde os resquícios de devaneios, tentar maiores voos. Vai do tamanho das asas, mas se nos cortam as guias à nascença...

Preocupa-me ainda mais o facto de grandes chancelas estarem a fazer o mesmo, muitas das vezes, com nomes conhecidos. E tudo isto eu lamento profundamente.

Ora, respeitados senhores, eis ao que chegamos neste novo século. O século dos vendidos das letras. As prostitutas do mundo literário.

Valha-nos a criatividade, que quase nunca dá para os gastos, mas que sempre vai alimentando a alma, sonhadora.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Dos direitos de autor

Não há ideias originais. A originalidade é um conceito romântico do século dezoito e dezanove.
Stanley Fish
(o mesmo que disse que qualquer descodificação é uma codificação que se pensarmos de forma inversa é a mesma coisa. qualquer codificação é uma descodificação por isso. mas talvez até não seja que uma pesquisa mais apurada indica-me que foi peirce o autor o mesmo a quem chamam pai da semiótica resta-me portanto prestar homenagem tanto a stanley fish como a charles peirce ainda que para o caso presente me interesse mais o stanley fish porque é a ele que se atribui a afirmação sobre a qual pretendo trabalhar)
, que afinal não afirmou que “every decoding is another encoding” afirmou que não há ideias originais porque todas as nossas ideias são fundadas no construto de ideias que nos antecede.
O pensamento que não é pensamento mas apenas a relação de ideias é algo que todos fazemos
(ao contrário do pensamento em que as ideias no seu estado cósmico e caótico nos surgem como diz nietzsche)
e isso não é criação , é apenas relação. Mesmo a somatização das ideias é apenas colocá-las em relação, não é pensá-las nem originá-las.
Tentar escrever uma ideia conforme elas nos surgem não só é impossível porque para isso não temos recursos multimediais
(aqueles que o nosso metafórico sistema conceptual permite)
mas também porque a própria mediação do nosso corpo põe as ideias em relação com os nossos conhecimentos prévios, ou seja, deixam de ser pensamentos e passam apenas a ser relações de conhecimento. Sobre estas podemos ter direitos de relação, mas não de autor.

Este texto é um duplicado daqui.