domingo, 24 de fevereiro de 2008



"A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim. Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Passou muito tempo desde que me deixaste sozinho entre as sombras que se confundiam com a noite."



Autor:José Luís Peixoto

in Antídoto

Foto:Paulo Madeira www.paulomadeira.net



quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

fingir que está tudo bem





fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: umo ceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.


José Luis Peixoto


A foto é do Paulo César de Olhares.com

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

...

quantas vezes apostaste a tua vida?

apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo.

José Luís Peixoto, "a criança em ruínas"
Foto de :Carlos Pereira Olhares com

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

«Todo o amor do mundo não foi suficiente»


foto do concerto na Sala Galileu Galilei retirada do blogue d'A Naifa


A primeira música que me fez chorar ao vivo, arrepiar-me e tremer ... A Naifa e a voz para lá de sublime de Maria Antónia Mendes, a melhor voz portuguesa, linda, maravilhosa, indescritívelmente bela... que vi apenas 5 vezes ao vivo... emoções ao rubro com um poema surpreendente de José Luís Peixoto... outro génio... mas é claro que ela não canta o poema à letra...

O poema:

Todo o amor do mundo não foi suficiente

todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada. ficaram

os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da
morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e
foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como
lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver
deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a
foder.

_josé luís peixoto

visitem também: www.anaifa.com

e o blogue: http://anaifa.blogspot.com/

«um dia tão bonito e eu não fornico» mas isso são andanças de Adília Lopes e a sua «Metereológica»... outra das minhas favoritas...