segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O arco-íris

O nervoso miudinho não deixava Maria sossegar. Levantou-se. Sentou-se. Voltou a levantar-se para ir buscar um copo de água à cozinha, e depois esqueceu-se de a tomar. Olhou pela janela e reparou que, no pasto vizinho, já não estavam as vacas que lhe tinham feito companhia nestes seus primeiros dias na Ilha, restava apenas um pasto enlameado que ia ficar cada vez em piores condições graças à chuva que caía sem parar.
No dia seguinte ia, finalmente, começar a trabalhar e estava com um certo receio. Enfrentar o escritório novo – e os colegas novos – seria sempre uma situação capaz de lhe causar grande ansiedade mas, além disso, estava sozinha numa Ilha onde a beleza das paisagens contrastava com a brusquidão das pessoas e com a bruma constante. Também poderia ser a bruma que tornava as pessoas mais bruscas, apesar da paisagem… ou podia ser só ela que estava a estranhar a pronúncia e a exuberância das pessoas à sua volta, e a deixar levar-se pela bruma.
Olhou de novo pela janela, apesar da chuva que continuava a cair, reparou que uns raios de sol começavam a vingar, e que havia um arco-íris perfeito, com as setes cores a brilharem à sua frente. Resolveu que este era um bom augúrio, no dia seguinte começava uma vida nova.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O tempo

Maria tinha vindo uma semana antes do início do trabalho para se instalar devidamente, mas os seus primeiros dias em Ponta Delgada foram algo difíceis, tinha de fazer um reconhecimento da cidade onde ia morar, começar a orientar-se nas suas ruas estreitas, treinar o equilíbrio na sua calçada irregular, e, a parte mais difícil, acostumar-se ao cinzento do céu de inverno e à inconstância do regime de aguaceiros.
Uma senhora numa loja explicou-lhe que estava com um certo azar, que mesmo antes de chegar tinham estado uns dias muito bonitos, que agora era sofrer com paciência durante uns tempos… Enquanto olhava para o guarda-chuva estragado pelas fortes rajadas de vento, Maria ficou com a ideia que “sofrer com paciência” seria uma expressão muito usada a propósito do tempo, e decidiu que seria inútil comprar um novo guarda-chuva.
O grande mistério que permanecia é como é que ao lado do seu prédio, em pleno perímetro urbano da cidade, estava um pasto com 20 vacas. Além disso, como é que tinha arranjado tantas coisas para fazer com a mudança, e andava tão cansada, que não tinha saído para visitar o resto da ilha. Os amigos do continente perguntavam-lhe das paisagens e ela respondia das 20 vacas, que se viravam todas na mesma direcção para se protegerem do vento.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

a chegada

Maria abriu os olhos muito a contragosto, ainda estava cansada da viagem da véspera e tinha tido pesadelos com a aterragem em Ponta Delgada.
Na véspera, enquanto esperava pelas bagagens junto à passadeira, só pensava que uma pessoa que nunca tinha andado de avião não devia começar com uma viagem em dia de temporal. Também pensava que não tinha espírito aventureiro o suficiente para se arriscar a viver durante um ano inteiro numa ilha onde não conhecia ninguém além do patrão, mas agora era tarde demais.
Respirou fundo, levantou-se, abriu o estore, e deu por si a olhar para 20 vacas num pasto mesmo ao lado do seu prédio.
Fechou o estore e voltou para a cama. Quando estivesse mais descansada havia de processar as novidades do seu novo ambiente.