domingo, 16 de novembro de 2008

Um poema de Pablo Neruda: saudade

sábado, 15 de novembro de 2008

LÓGICA DE VÔO





para ampliar, clique na imagem...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O caminho da voz

Era de noite e a voz caminhava, ora negra ora sedutora. Levava do canto daquela sala, o sentimento de cada rosto. Uma taça de tinto juntava a pele á alma. O avental parava sem o silêncio e rebuscava nas palavras o nome de alguém. Talvez de um cliente. O destino de quem conhecia a voz ficava à distância de um fado. A sala estava cheia. Tão cheia, que o som atropelava vidas que os olhares não conseguiam guardar. E dali a voz caminhava, sobre o relevo de um mapa. Solto e á espera do mar.

também por aqui e aqui

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

dois poemas de barack obama escritos em 1981

Poemas de Barack Obama em português na Casa dos Poetas traduzidos por mim.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

#028-2

técnica mista sobre tela
2x [70x120 cm]
colecção particular de S. Q.


sábado, 8 de novembro de 2008

O soldado a voltar para casa

A felicidade existe, embora nunca se lhe toque. Ou está num futuro sonhado ou num passado sem retorno. Às vezes, dá-se o caso de duas pessoas se encontrarem juntas, sentirem-se deprimidas e, só após um final, se aperceberem de que eram feitas uma para a outra. Infelizmente, o amor não é como o desporto. Depois das palavras feias terem sido derramadas, do murro ter sido desferido, não se pede desculpa. Vai-se embora para sempre. Mas há o presente, sim, palavra importante. O presente é quase como a felicidade: existe em função de um passado ou de um presente. Tudo isto para quê? Para dizer que em dia X do ano Y, uma mulher foi-se embora do quotidiano de um homem, tendo-o deixado a pensar no que poderia ter feito para que tudo tivesse corrido de outra maneira.

Um dia, sentado num banco de jardim, vês uma mulher, apaixonas-te, dizes-lhe: «Olá, queres casar comigo?» E se não disseres isto dirás qualquer outra coisa patética e corarás tanto que te apetecerá fugir. E ela responde-te que sim, que se quer casar. Dás-lhe a mão. Quando se procuram sentimentos, o gesto de dar a mão é muito importante. Sentir o cheiro, olhar para as flores (ou imaginá-las). Tudo da maior relevância.

O maior solitário é aquele que vive com fantasmas.

Ela está à mão de semear e decides dar-lhe o teu melhor beijo. Quando vais para descolar os teus lábios dos dela, eles não saem, por conseguinte, a inocência vê-se obrigada a eternizar aquele momento. A boca na boca, os braços no braço, o umbigo no umbigo, os pés que pisam os pés, a dor boa. Tu a pensares que queres morrer ali, naquele lugar, naquele momento, já que não há mais nada para aprender.

Eis uma ausência de presente: ainda hoje, após tantas batalhas perdidas, o soldado deseja voltar para casa.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

"LEITURA NO PURGATÓRIO" DIA 19


Martim Pedroso irá abrir ao público amigo, conhecido e curioso uma leitura encenada de excertos do texto «Purgatório» de Joris Lacoste. Este texto será o ponto de partida para a sua criação de 2009. O mini-evento terá lugar no Aquário da ZDB no dia 19 de Novembro pelas 19h e terá também a presença do actor Vitor d`Andrade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Algumas coisas

Google imagem

Afaga a tecla

Se o fato for

Por falta

Do ato arcaico

Encontro

Delicioso e confuso

Confronto

“Mouseia”

Anatômico artefato

Criador

De frágil verdade

Atrofiando

Possibilidade única

De tocar-te.


By Casti
(Fio assimétrico)

domingo, 2 de novembro de 2008

URGE


Anne-Julie Aubry

O paladar recolhido no heliotrópio,
Quem o sentiu?

Dentro da anêmona há uma alma,
Você a viu?

Pássaros que vão para o sul ou norte,
Alguém os chamou?

Então vamos! Não há tempo para tanto
E ainda sei tão pouco...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A voz que se cala

Ele já não conseguia falar com ela. Este facto tão simples complica-se quando se descobre que A sofre por B. O corpo dela dava ares de ser possuidor de uma corrente eléctrica tão potente quanto o peso da baleia em cima do pescador. Andava com aquela mulher há quatro anos e, pela primeira vez, começava a sentir que lhe era, de certo modo, estranha, alguém com quem não se poderia partilhar os mais íntimos pensamentos. Perdes o parceiro quando te deixas de sentir à vontade para convidá-lo para a dança. Para a levar para a cama, ele precisava de implorar, pôr-se de joelhos e pedir: «Por favor.» Às vezes, quando começava a contar uma piada, parava a meio, como se do outro lado não houvesse nada para além da distracção. Todos os dias ele fazia esforço para conseguir suportar a companhia de uma pessoa que, pela indiferença, o fazia querer voltar atrás no tempo. Imagine-se a sensação de ter dois pratos na mesa e só haver um indivíduo sentado para comer. Estar com ela era pior do que estar sozinho. Muito pior. Um homem só tem-se a si próprio. Com ela, aparecia a dor de se sentir perdido e de não ter companhia nem amor. Ele queria ir embora, no entanto, era demasiado cobarde para o fazer. Mais do que isso: egoísta. Preferia ficar com um pássaro na mão do que com dois a voar. Por conseguinte, ia ficando, cada vez mais enroscado na sua pequena teia-de-aranha, cada vez mais peça de mobília, azulejo de parede, fotografia da qual a memória não se recorda do nome.

00:04

sábado, 25 de outubro de 2008

existe



existe uma magia na margem deste rio. sinto-a, como se olhos de duendes me seguissem os gestos. faço-me bailarina. percorro a beira rio salpicando água em movimentos suaves. se me observam, ignoro-o! mas gosto de me sentir procurada por olhares. saboreio a fantasia de uma ribalta. não oiço aplausos. consigo imaginá-los! porque os duendes que me seguem os gestos com o olhar têm medo da água. surpreende-os a loucura da minha dança e a vontade de a fazer na margem do rio que nunca podem alcançar.


Autor:http://pin-gente.blogspot.com/
Foto:Natália Stragg

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

V Império

A música O Castelo do conjunto português V Império. Alguém sabe o que lhes aconteceu?

VAGAR


Anne-Julie Aubry


Sobre a mesa, pratos que esvaziam,

jantares que não sustentam a fome,

potente anestésico dentro do vinho.


Nas léguas que percorro abstraindo,

meus passos ligeiros me levam dali

para cada vez mais longe das vozes.


Todos apenas falam, sem parar. Calo,

observo nas dobras da toalha branca

montes de areia no meu deserto alheio...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Quero:
as tuas
Roupas
Espalhadas
No chão
Pelo meu quarto.
Os teus dedos macios
Espalhados
Pelo meu
Corpo
Toque de piano.
O frenezim de um Frazão.
Quero:
Apenas aconchegar-te
Ver-
Te
Dormir
Sentir que
Te sentes
No ninho
Abraçar-te.
Porque sei da importância de um abraço.
Cuidar de ti, como se cuida de um menino pequeno.
Como cuidas do teu filho.
Precisas de cuidados.
Quero:
fazer-
Te
Uma massagem.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O fundo da gaveta

James Burn era um detective peculiar: só tratava de casos já julgados, cujo veredicto tinha ditado a pena de morte. Mantinha um vasto ficheiro de pastas que consultava regularmente. Quando, por acaso de circunstância, ou por intervenção de familiares dos condenados lhe chegava alguma pista extra, passava o caso para os pendentes, e, a partir daí, seguia a nova pista com minúcia e perseverança até a esgotar. Às vezes, a pista dava em nada, noutras, chegava a conseguir a reapreciação do caso, e várias vezes a libertação dum inocente.
Eram esses casos que o enchiam de orgulho e, como outros admiram o diploma emoldurado na parede, ele, todas as manhãs, folheava as pastas dos casos resolvidos: o caso do adolescente que fora condenado por violação e morte da namorada, mas que afinal tinha sido obra do padrasto; o caso do negro que morreria daí a dois dias, quando a sua investigação provou que ele estava longe do local no momento do crime; e mais uma meia-dúzia de outros casos.
No fundo da gaveta estavam os dois que ditariam a libertação dos inocentes, mas que, infelizmente, foram resolvidos tarde demais para os condenados. A pena de morte antecipara-se. Quando tinha coragem para os folhear, invariavelmente, abria também a última gaveta da direita da escrivaninha donde retirava uma garrafa de Jack Daniels.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Maria do Sameiro Barroso vence Prémio Palavra Ibérica 2009

O blogue das artes dá os parabéns a Maria do Sameiro Barroso.

Para ler alguns poemas da autora siga este [link]

domingo, 19 de outubro de 2008

Última Parada 174

No dia 12 de Junho de 2000, o autocarro da linha 174 no Rio de Janeiro ficou detido por várias horas por um homem armado. Fez vários reféns e tudo foi acompanhado em directo pela imprensa brasileira. Este acontecimento daria origem ao documentário Ônibus 174, divulgado em 2002 por José Padilha (o realizador do filme Tropa de Elite). No vídeo abaixo poderão ver um excerto do mesmo.



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Bruno Barreto recupera agora a história e traz-nos um filme que promete ressuscitar o debate sobre o lado mais negro da realidade metropolitana do Brasil. Deixo-vos o trailer, o título é Última Parada 174


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Casa dos Poetas

Um excelente blogue o Casa dos Poetas. Boa base de dados da poesia portuguesa e universal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Fraqueza, incapacidade, ignorância

Fraqueza: não despejar a raiva no ouvido do monstro, não dizer à avó que se gosta dela mais do que de tudo o resto que anda, não dar o beijo na boca da rapariga que passa, não protestar quando se deve, não só não saber perder como não saber ganhar, querer ganhar acima de tudo mas só conhecer o sabor da derrota, querer dinheiro, trabalho, prazer, querer fugir da dor, dessa maldição que cobre o planeta, especialmente o planeta de um só homem, o quarto, a carne, o lenço que fica molhado após o contacto com a pálpebra molhada. Fraqueza e incapacidade: duas palavras que moldam uma vida. Ignorância: a palavra mais forte. Perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem, não sabem mesmo, desculpai-os por todo o mal, Senhor. Os pequenos animais, os macacos que rapam os pêlos da cara, que fingem saber o abc dos livros, que colocam perfume na camisa de seda, que matam, que desprezam, que fazem sofrer, que sofrem desalmadamente, como se não existisse mais nada para além de um longo sofrimento. Agonizar dentro da fogueira em que a mão de carne deita fogo à biblioteca de papel. Defecar, urinar, vomitar, tossir, espirrar, arrotar. Eu defeco, tu defecas, ele defeca, nós defecamos, vós defecais, eles defecam. De certo modo, a palavra feia cria mais repulsa do que o balde cheio de fezes, do que a boca cheia de esperma, do que o prego espetado nas costas. Perder, ninguém aparecer na vida daquele que quer gente a surgir-lhe à frente do olhar com intenções de amizade, ter sempre o jogo perdido por mil . Não haver talento para nada, nem para a masturbação, que dura três segundos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

EMBARQUE


René Magritte
Acode minha ânsia, teu sexo,

última chamada antes da noite!


Flagrados meus delitos carnais,

transportaremos fragrâncias sutis...


Depois, partirá o navio do porto,

recolhe minha alma a tua alma,


escreve nossos nomes no espelho

e mira teu belo rosto no infinito...

sábado, 11 de outubro de 2008

NO INEFÁVEL DA ARTE

NO INEFÁVEL DA ARTE

Perco-me na arte, na escultura que a natureza concebeu, no momento de todos os momentos, por traços cada vez mais totais, mais perfeitos, mais cheios de desejo, com todas as cores, desde a manhã e a noite. Somos noite e o dia exibido! Somos neste reino de sentido por vezes proibido.
Artes, talvez um pouco daquilo que o espírito contém, talvez! Direi talvez, porque não sei, não posso saber, quando tento saber disso que deve ser, perco-me no esquecimento e toda a verdade derrama-se na terra do esquecimento. A arte é mesmo este esquecimento das coisas prometidas, das coisas que te digo, do que te continuo a dizer e tanto que não podes avaliar. Hoje foste capaz de avaliar tudo o que fiz, tudo o que disse e escrevi e a arte traçou uma nova aventura. Sabes bem que toda a nossa arte conjuga-se na arte da existência e de tudo isso que foste capaz de traçar no reino dos sentidos. Apurei todos os sentidos e os sentidos lançaram um novo ser, o ser que te foi dado a tomar, no corpo singelo e complexo, mas total. Apuro as palavras e apenas ficas no lugar inefável.

Vila Franca de Xira, 11 de Outubro de 2008 - 23:32h
Jorge Ferro Rosa, in Caderno da Alma

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Canção de saída

O despertador começa a tocar. Dez da manhã. Bem que poderiam ser duas ou três da tarde. Não há nada para fazer, ninguém com quem contactar. Os amigos não estão, nunca estiveram, foram uma invenção. Não se pode imaginar dois cães enraivecidos a manterem laços sem que saia um sorriso. Uma curva que se põe nos lábios. A família não está, nunca esteve. Outra invenção. O pai, a mãe, a avó, a tia, o primo, tudo invenções. Ninguém existe realmente. O despertador toca e uma pessoa vê-se obrigada a sair da cama porque perdeu o sono e não quer ficar debaixo dos lençóis a ter pensamentos tristes. Mas fora da cama também não há nada. O homem coloca os pés no chão, arrepia-se com o gelo outonal e levanta-se para um banho de água fria. À inglesa. Para enrijar. Enrijar, é assim que falam os homens grandes. Ganhar músculo, tesão, levá-las para a cama e fazer-lhes filhos. À homem. Mas os homens não são rijos. Tomam banho de água fria por não terem dinheiro para uma botija de gás. Um objecto para custar meia dúzia de tostões. Onde está o rijo? Passar os dias a escrever, a ler, a dormir, a iludir-se com o futuro que nunca chega a ser futuro, porque é cada vez mais passado. Isso é ser rijo? E abandonar um filho, é ser rijo? De forma breve, quase meteórica, o homem toma o seu banho gelado (outra solução seria não o tomar e ir para a rua todos os dias com um cheiro a novilho) e veste uma camisa surrada na gola. Olha pela janela: a humanidade é imensa e infeliz. O que fazer? Ir procurar trabalho? Dormir? Deixar o mundo correr e mandar o amanhã às urtigas? Pôr perfume no pescoço. O homem põe perfume e penteia-se para não sair de casa. Fica todo cheiroso para nada, ou melhor, para abrir um livro e o começar a ler. Talvez a loucura inclua gente que quer fazer amor com papel nas suas instalações. A namorada? Nunca existiu, tudo ficções. A mulher? Uma ficção ainda maior. O homem lê trinta páginas de um livro de poemas, pisca os olhos – primeiro o esquerdo, depois o direito – para perceber se ainda vê do mesmo modo que via antes de ter começado a ler. A solidão dá para tanta coisa. Às vezes, dá para sofrer, para sentir uma dor tão grande, mas tão grande, que se quer morrer. Um homem levanta-se e deita-se e não faz nada e não há nada e nada existe porque nada faz sentir felicidade e isso magoa, magoa tanto, tanto, tanto, que se deseja morrer.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Literatura

Li
Te
Ra
Tu
Ra

Li
Tu

Li
Tera
Tura

Terra?
Turra?

Litera
Tu
Ra

Lira
Tetu
Teto?
Ra
Rã?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sonho versus pesadelo



Acabar com a dor. Ter a ferida no braço e rezar aos céus para que o sangue deixe de correr, para que não se dê uma razia. Uma hecatombe, palavra pesada que lembra um elefante a estatelar-se no chão poeirento. A bomba no céu que se vai deixando cair, cair, cair cada vez mais, até tornar inevitável a destruição de um indivíduo, de uma aldeia, de uma cidade. O homem que se vai deitar com uma granada no bolso das calças do pijama, que beija a mulher e diz boa noite, até amanhã, e que sabe que o amanhã não chegará nunca porque há a bomba, a granada, a ferida, os pêlos chamuscados, a pele rasgada, as vísceras de fora, o osso descarnado, a destruição. A criança que não dormiu de noite porque pensa na rapariga bonita e que sofre, que sente um aperto na barriga, na garganta, por ter perfeita consciência de que não a beijará, de que nunca a apertará nos seus braços, que tudo pertence ao domínio do sonho. Tudo pertence ao domínio do sonho: «Bem-vindo ao meu reino. Sê feliz, procria, enriquece, trabalha, dorme, fornica, descansa, sorri, abraça a mãe e o pai, almoça com os amigos, passeia com a namorada. Acorda. Acaba com tudo.» Sonhar é como estar num futuro ideal mas ao mesmo tempo não estar, não tocar, não sentir. É cheirar o perfume da mulher sem tactear. A velha que sonha com o passado que não teve, com os filhos e os netos que não nasceram. O não ter uma descendência para a frente nem para trás, não ter um pai nem um filho. Ser só, peão isolado na longa estrada que leva ao desaparecimento. Ser isolado e ver uma mulher a passar na rua. Sentir paixão no peito. Agarrá-la pelas pernas e lambê-la, encostá-la à parede e dizer: «Casa-te comigo, foge comigo, vem comigo.» E ele não querer casar, não querer fugir, não ir a lado algum. E ser o cavaleiro sem espada no meio da floresta recheada de lobos. Tudo o que não pertence ao reino dos sonhos faz parte da dura realidade que é o pesadelo. Quase tudo é duro, pesado, agressivo, mortífero. Quase tudo o que não é felicidade é pesadelo. E o pesadelo é quase toda a vida. É sentir dor, gritar no meio da praia vazia, estar deitado numa maca de hospital, pedir ajuda, virem médicos com garantias de que não se pode matar o paciente. Ter o veneno à frente da boca mas ser controlado pela cobardia. Fechar os olhos deitado num prado e entrar num outro planeta: «Nasceste rico, vais para a escola dos meninos bonitos, tens namoradas, mil namoradas, dás mil beijinhos. Terás a melhor das adolescências. Quando chegares a adulto, os bolsos das tuas calças estarão sempre cheios de notas de mil e de cinco mil e de um milhão. Envelhecerás com calma, terás filhos, crianças lindas , os teus pais morrerão, claro que sim. Os pais morrem sempre. Mas os teus morrerão felizes por te verem feliz. Tu próprio morrerás, mas será tudo lá para a frente, para o infinito. Agora, és uma espécie de arco-íris.» Acordar, sair da cama, tomar o ansiolítico, trabalhar, levar com o cajado nas costas, ser tudo mas mesmo tudo mentira.

poème a trois

um conto de Tiago Nené na Letrário Editora.

para ler [Aqui]

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Nenhum, nada, zero



As têmporas inchadas, as veias a quererem ultrapassar os limites da pele, a testa franzida, enrugada, engelhada, velha, estúpida, podre. A dor na cabeça que não pára de crescer, os olhos a diminuírem. Os ossos que vão estalar, o maxilar deslocado, o nervo do dente que foi atingido pelo relâmpago e que precisa de desvitalização. O crânio que parece apertado pelo crescimento de um cérebro oco, vazio, fútil. O adjectivo na frase necessitada de algo mais compacto e substancial. A dor, os diferentes tipos de dor. O orgasmo que magoa e que simultaneamente dá prazer. O murro no estômago que faz chorar. A dor tem diferentes registos. Muda de pessoa para pessoa, de contexto para contexto, de segundo para segundo. Enterrar um prego no pé não é, certamente, receber um pénis de proporções inimagináveis num dos orifícios do corpo. Partir uma perna não é ganhar uma prova de atletismo com os pulmões esgotados. A mesma dor varia. Numa guerra, dois homens que levaram o tiro na mesma parte do braço poderão ter reacções diferentes: basta um ganhar e outro perder a guerra para tudo mudar. Aquele que consome droga por desgosto não sofre do mesmo modo no momento de se injectar e no momento da ressaca. Tudo muda, tudo se altera, tudo se agudiza, tudo desaparece. O desaparecimento. Haverá palavra mais importante para o ser humano? Nascer, crescer, atingir um metro e oitenta de altura, noventa quilos de peso e, no fim, acabar dentro de um frasco cheio de cinzas, sinal de memória para os que ficam. Ser herói, liderar a cruzada, a revolução, o golpe de estado, levar com o machado nas costas, acabar deitado dentro de uma caixa de madeira com as carpideiras a servirem de pano de fundo. O rasgar de pano nos ouvidos. A esposa a beijar os lábios de um homem que não o marido. Acertar com o martelo no polegar, deixando o prego ileso. A agulha nos olhos do pardal. Ficar sozinho, estar sozinho, andar sozinho, traído, abandonado, despojado de tudo, não fazer sentido, nenhum sentido possível, e abandonar tudo, sair do barco vazio e cair no mar à espera que o destino decida se a morte chegará ou não. Partir para uma realidade diferente da actual e ser feliz, feliz com o que não existe, com a imaginação, com as plantas, com os anos verdes, com a dama, com a rainha, com o cofre do dinheiro. O sono, a vontade de dormir, o começo de final, de escuridão, de treva, de inferno.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Abertamente

Pergunto-me, e este é o meu descanso.
Relativa esta acalmia... há dias no meu ser.
E pensar, ou ler...
Este estar, este ver...
Sentir? Porque não?
Serena... mais leve...tenho uma pena em mão.
Ao escrever, acorda-me o vento do agora...
de nunca querer acreditar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Lenda do Lobo e da Raposa

 Era uma vez, a muitos muitos anos, quando ainda o mundo dormia sobe a luz das velas e as florestas ainda falavam as palavras antigas com que o mundo havia sido criado.

 Existia uma pequena raposa que havia ficado sozinha no mundo, no seu passado recente um grupo de caçadores tinha seguido a sua familia ate a sua toca e haviam chacinado todos os seus pares... ela sobreviveu graças a um lobo solitario que por ali passara e afugentara os caçadores.

 O lobo acolhera-a na sua toca e tratara-a como sua irmã mais nova, mas com o passar das luas e das epocas, o amor que tinha começado como uma familia adoptiva passou para um amor cada vez mais tenro de dois amantes.

 Foi pouco tempo ate que ambos olhavam com os seus olhos castanhos um para o outro no luar e mostravam as suas faces como dois verdadeiros amantes.

 A floresta tinha culminado num amor idilico e impossivel e embora o seu amor não podesse ser de alguma forma possivel, os dois continuavam a alimentar a chama que havia lhes sido imposta.

 De manhã o lobo caçava para a sua amante, de tarde ambos brincavam junto a um pequeno lago em semi-lua que por lá existia e de noite juntos a olhar para as estrelas aninhavam-se ate adormecer.

 O lobo era filho da floresta, havia sido expulso do seu bando por nunca ter tentado roubar galinhas aos humanos, pensava ele que alimento facil não era merecido, muito menos quando o alimento não pertencia a floresta, esses seus votos faziam dele um não desejado, pois se os homens começavam a corromper-se, os proprios bixos da floresta começavam tambem a cair nas "aguas" da desonestidade e da preguiça.

 A raposa, embora nunca se tivesse esquecido da sua familia, havia sido ensinada pelo Lobo que o resentimento não se devia guardar.

 Ambos viveram muito felizes, muito puros na sua inocencia...

 Certo dia o Lobo ouviu tiros... Saiu da sua toca e a sua volta chegaram-lhe os sons da floresta... os ramos e as folhas das arvores gritavam para que os dois fugissem, ambos corriam perigo, os humanos estavam fartos do roubo de galinhas e estavam ali para matar todos os lobos e raposas que por lá estivessem.

 O Lobo acordou a Raposa e ambos correram ate ao lago onde costumavam passar as serenas tardes... mas era tarde demais... os homens haviam encontrado o seu rasto e com um só tiro puseram fim a vida da pequena amante... o Lobo não se conteve de raiva e atacou o ser humano, mas como estava em minoria depressa foi apanhado e a sua vida foi terminada com o som de uma faca a rasgar um coração já partido...

 A floresta recentiu... a inocencia havia terminado... agora, só se ouve as lagrimas de um amor impossivel destroçado.

 

A muito tempo que não postava nada por aqui, a faculdade e a vida privada tem me feito "fugir daqui" x) por isso deixo um conto para os mais atentos e curiosos. Espero que gostem

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Diz-se que o homem morreu

A morte, não a pequena mas a grande. A Morte. Desaparecer. Os dias parecem lentos, cada vez mais lentos, até se tornarem mais rápidos do que a velocidade da luz. A vida demora sempre muito tempo a ir embora. A vida está sempre a ir embora. Os dias são velozes. As expectativas desaparecem mais depressa do que aquilo que já aconteceu. O futuro tem sempre uma grande dose de passado. Pensa-se no amanhã quando o ontem está mesmo a dar à costa. Com catorze anos, dizes que queres morrer aos vinte e sete, imitando a vedeta rock. Ficas espantado quando descobres que treze anos passam com a rapidez de um trovão. O tempo passa muito depressa. Um ano passa mais depressa do que o teu sonho de ser feliz. Às vezes, um homem nasce e morre sem nunca ter conhecido a felicidade. Depois diz-se que o homem morreu sem um sorriso na boca. E culpam-se aqueles que ficaram no mundo dos vivos por nunca terem feito feliz aquele que perdeu o ar. Mas a verdade é outra: podes morrer sem nunca ter tido tempo para aquilo que realmente importa. Os homens falam mais do que agem e depois não mordem. Morrem, isso, morrem sempre um bocadinho mais a cada momento que passa. Parece trágico. Talvez. Também dá para morrer sem nunca ter sido infeliz. Como é que se morre sem infelicidade? Não conhecendo ninguém. Ser sozinho sem nunca ter conhecido pessoas. Sem nunca ter conhecido. Esta é uma parte muito importante. Sem nunca ter conhecido. Se te isolares após teres conhecido, por exemplo, o cheiro de uma linda mulher, não poderás fugir à dor. O ideal é um homem estar dentro da caverna escura, não querendo sequer olhar para as sombras. Quando se liga a televisão, dá-se a mostrar o físico da sereia. Na rua, mesmo fixando os olhos nas pedras da calçada, não se pode fugir ao encanto de certos corpos que dançam como serpentes. Não podes fugir à dor se conheceres pessoas. És livre de fingir deficiência, cegueira, surdez, mudez, retardamento cognitivo, tudo. Podes atirar o monóculo para o lixo, partir os óculos com graduação de sete para ver ao longe. Se já viste, de nada vale fingires que não podes ver. O presente é sempre ultrapassado pelo passado. Estás aqui agora, neste preciso momento, e sabes que não podes fugir ao processo natural de envelhecimento. A tua vida é o passado: a tua felicidade, melhor, todas as tuas causas de infelicidade residem no passado. O beijo perfeito foi dado no passado. O amor da tua vida apareceu há ano e meio. O teu casamento foi há vinte anos. Agora, estás em queda livre para a infelicidade. A pele envelhece, o cérebro apaga-se. Como as velas que não têm cera nem pavio suficiente para arder eternamente. Foste feliz, dizes. Concordo. Palmas. Mas queres saber o seguinte: a tua infelicidade é consequência directa da tua felicidade. Quanto mais alegre fores, mais triste serás. Conheceste a perfeição há três dias? Nunca mais a verás. Foi-se, acabou, é passado. Solução: atrasa o relógio duas horas, três, se o teu calendário disser Setembro, atrasa-o para Janeiro e imagina que estás a começar o ano que começou há nove meses. Se estiveres no século XXI, finge-te do século XX e pensa nos cheiros, nas roupas, nas pessoas. Lembra-te da forma que as mulheres tinham de beijar no século passado.

Tio Rias

Um dia, uma tarde ou uma noite (só ele sabe), numa Terra Sonâmbula, Mia Couto escreveu:
- Não gosto de pretos (...)
- Dos brancos?
- Também não (...)
- Eu gosto de homens que não tem raça.

Esta tarde (só eu sei), Carla Veríssimo escreve:
Não me apetece ouvir pretos a falar.
Brancos?
Também não.
Apetece-me estoricar.

Não me apetece estas velhas (todas) parvas. Estas velhas todas. Estas velhas parvas. Estas velhas todas parvas, Onde é que é o 26? Desculpe mas o 3 é o meu lugar! Olhe, no 57 sou eu!
Não quero esta gente louca engalfinhada no corredor estreito do autocarro.
Não me apetece ver ciganos, nem ciganas, nem os seus filhos sempre muito(s) imundos.
Não quero ver choninhas de camisa dentro das calças, óculos fundo garrafa, a mandar beijinhos à namorada, que vai partir, num autocarro de gente louca.
Não m’ápetéce saber que o námuradu de uma que vai atrás de mim desbunda mêmu à grande; e que o da outra que vai ao lado dela e fala à tia de Cascais tá dentro de cana.
Não gosto da raça de homens que não tem preceito na fala, e fala dá-le, auga, taobein, pirula, quaise, treuze, hás-de, prontos, dissestes, cuatorze.
Não quero ver carros a passar com protectores solares colados aos vidros, com desenhos do Shrek, Fiona, Burro, Gato das Botas e Companhia Lda.
Quero estoricar sem esturricar. E sem estes tremeliques por causa de uma estrada que pagamos para ser mantida em mau Estado.
O Estado… esse infame derradeiro, da Nação aborrecida.
Desta nação em estado de queixume constante.
Não quero ver Parques de Merendas abarrotados de gente abarrotada depois de almoços de Domingo.
Não quero ver cães presos por correntes, às correntes de um tractor.
Vou lá passar o fim-de-semana com ele e ainda se mete com merdas a dizer que não gosto o suficiente dele?? Havia de ser outra a fazer por ele, o que eu faço! Ele deve pensar que tenho orgulho em ir passar o fim-de-semana com o meu namorado à prisa?
Não quero saber dos presos! Nem das conversas dos presos! Nem dos namorados presos das que não estão presas!
Não quero ver árvores tombadas de velhice. Falta de ar. Ventanias várias.
Homens (ou Mulheres) sedentos de papel. Papel. Carcanhol. Trocos. Cheta. Tlimtlim. Tusto. Graveto. Tostão. Pasta.
Não me apetece ver couves nos quintais, por entre hibiscos, arbustos, coentros, salsa e palmeiras de jardins com cada verde da sua nação.
E a Vanessa, que não liga nenhuma ao Márcio e só faz merda. E o chavalo é bonito. Tenho olhos na cara é pra ver!
Virar-me pra trás, arregalar os olhos e gritar: CALA-TE!
E depois em tom normal acrescentar: Chavala!
Não quero ver toldos de igrejas com a mensagem: Jesus é Amigo.
Não quero ver namorados a catar namoradas, nas paragens de autocarro.
Não me apetece ver casas pintadas de verde-água.
Não gosto de ouvir dizer encarnado.
Não quero estar à rasca pra mijar, só porque é mais chique estar aflita para ir à casa-de-banho, tá a ver?
Não me apetece ouvir (poucas vezes, mas ouvir) a Venezuelana, Barranquenha, Espanhola ou Lá o Que É, da que vai ao lado da tia de Cascais.
Não quero ver as velhas que se atropelam agora para saírem do 26, do 3 e do 57. Não as quero ver engalfinhadas, a engalfinhar a bagageira do taxista com os seus sacos dos ciganos (carregados de roupa). Não quero ver a tia de Cascais e a Venezuelana, Barranquenha, Espanhola ou Lá o Que É, a meter dentro também as suas malas e malinhas, o taxista já todo carregado, a carregar a embraiagem aldeia fora.
Não quero ver-lhe a cara de matarroana, aldeã, campesina… nada a ver com a voz de tia, mas tá a ver, com a unha pintada de encarnado!
Não quero cartazes “Aceita-se terras”, com o verbo no singular e o substantivo no plural, como se fossem um Mia Couto, sonâmbulo, a aceitar uma terra.
Eu gosto de comboios que não tem raça de homens… descarrilados.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Antes da estupidez

Ter confiança numa mulher. As mulheres são perigosas, tão perigosas que traem, que fazem sofrer, que matam. Querer acreditar nelas, numa delas, ganhar confiança, casar, criar família. Só ter desconfiança. Uma palavra mais clara: cepticismo. Pensar no sexo. Agarrar o pescoço de uma fêmea e mordê-lo, beliscar as nádegas de uma senhora, espreitar pelo buraco da fechadura e ver uma dama despida e sentada em cima de uma sanita. Penetrar o sexo com o sexo. Transpirar abraçado a uma pele. O sexo é muito forte. E o erotismo e a imaginação. E o arrependimento. A fêmea está de pernas abertas, o pénis entra, joga o jogo, adormece e arrepende-se. Ganha consciência da fraqueza de certas vontades. A vontade que leva a trair é mais fraca do que o arrependimento. Se o indivíduo que vai trair conseguisse sentir sempre o mesmo estado de alma que se segue ao orgasmo, nunca pensaria em sair de casa. Faltar-lhe-ia o desejo. Quando vais na rua, queres violar X, rasgar o vestido de Y, ir para a cama com Z. Mesmo casado, pensas nisso. Um homem (ou uma mulher) não fica livre de vontades que a racionalidade não controla. Acordas sozinho e com vontade de fornicar. Se não fores comprometido, vá lá, se não fores casado, a tua consciência estará livre do pecado. Poderás pensar em mil mulheres. Se tiveres uma namorada, uma esposa, estarás preso. O pecado será o teu maior inimigo. Estará sempre presente. Como Deus. Um ao lado do outro a ver quem faz o quê. Queres trair sem arrependimento. O que acontecerá se traíres? Nada. Continuarás a ser o mesmo homem, só que com uma dose maior de pecado em cima do corpo. Acreditas em castigos? Também acreditas na atracção e no sémen espalhado pelo corpo da menina. E no arrependimento. E na vergonha. Se tudo isto está dentro de ti, não deverias trair. Há o arrependimento. Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti. Há a vingança. Faz aos outros aquilo que te fizeram. Trai, bate, esfola, parte. Se fizeres o mesmo que te fizeram, sentir-te-ás melhor (que mentira) e arrependido. As mulheres são perigosas. Tu és perigoso. Somos animais. Não confies em ninguém. Ninguém confia em ti. O sorriso da tua senhora é um pequeno passo para a infidelidade e para o teu sofrimento e para o sofrimento dela. Queres trair se fores traído. Uma evidência. Mas não queres trair para sentires uma dor maior do que aquela que tinhas antes da estupidez.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Crónica escrita num quarto onde se tentou fazer amor

Por favor não me deixes assim!
O que se passou entre nós?
Porque não deste um toque?
Eu aqui a estudar, sempre na expectativa de um toque, uma mensagem, uma chamada.
O que te aconteceu?
Ainda ontem aqui viste depois de jantar.
Ainda ontem na minha cama, lembras-te?
- Ritinha.
Ainda ontem, coiso e tal, eu embrulhada no cobertor, tu a meteres a mão na minha coxa.
Eu a beijar-te. A chegar-me a ti.
Tu sentado. Tu tal e o coiso.
Eu em cima de ti. Eu atrapalhada no cinto.
Eu a tirar-te as calças.
- Assim não dá.
Eu a perceber que para te tirar as calças, tinha primeiro de te tirar as sapatilhas.
Tu a olhares para mim. Eu atrapalhada nos atacadores.
Da janela via-se a Lapa. A Lapa, o quartel, e pouco mais.
Mais uns tempos, acabo a escola e mudo-me daqui.
Eu a pensar que podias vir-te comigo.
E nisto tu a chamares-me Ritinha.
- Não sei o que se passa, Ritinha.
Isto nunca me aconteceu.
Tu sem ímpeto. Tu murcho…
Eu a ajudar-te. A dar o meu melhor para que aquilo ganhasse vida própria.
E ganhava. E fazíamos mais uma investida.
Mas de repente, tu outra vez:
- Não pode ser. A sério, Ritinha. Não sei o que se passa.
Já houve noites em que fumei, bebi e correu tudo lindamente.
Eu a beijar-te. A dizer-te Não te preocupes. Paramos um pouco. Dormimos, e quando acordarmos voltamos a tentar.
- Não contas isto a ninguém! Que vergonha. Eu só com 23 aninhos.
Claro que não conto a ninguém.
Claro que dormimos, e claro que quando acordámos não voltámos a tentar. Saíste para a rua. Entraste no carro e deste à chave.
Eu a olhar-te da janela. O carro trrrrr, trrrrr, trrrr... a não querer pegar.
Eu a rir. Claro que não era por maldade. Mas nada teu pegava.
Desci a ver se precisavas de ajuda.
Eu ali, a dar, novamente, o meu melhor para que aquilo ganhasse vida própria.
E ganhou. E fizeste mais uma investida. Desta vez no acelerador. E foste-te.
Mas podes vir-te hoje à noite.
Tentamos no carro. À janela. Eu ponho uns cremes. Uma música. Começo pelas sapatilhas. Não me atrapalho nos atacadores. E vais ver como vai ser coiso e tal, na tua vida própria.

domingo, 21 de setembro de 2008

As águas que choram algures

As águas que choram algures acariciam-nos, levando de nós e das nossas vidas tudo o que é impuro, tudo o que já não serve e que a alma já estranha...
Peço à chuva que dance em mim e me ajude a deixar para trás o passado e todas as suas amarguras...
Nas minhas margens, resta o silêncio perante a vida que foi mas já não é, a vida que muda a cada instante e transfigira experiências e sentimentos...
O vento mágico devora a chuva caída e os restos de tudo... de tudo o que passou de tudo o que tem de ficar para trás para nos libertar do seu peso e nos permitir prosseguir...
Qual de nós sabe que chão pisa?... E ainda assim pisamo-lo... vendo-o por vezes virar-se contra nós, como se tivéssemos outra alternativa além de pisá-lo...
Sinto frio na alma, como tu... o frio do vazio deixado pelo passado que se esvai à medida que um presente novo e desconhecido se instala, um presente bom, prometendo ser quente, mas que ainda é frio e desconhecido... um presente que não deixa sulcos, ao contrário desse passado de que me pretendo desprender... não me reconheço, sempre fui susceptível a sulcos, parece que não me deixo atingir já como antes...
Um corpo é sempre frágil; este move-se apressado, tentando esconder dos demais os seus medos e as suas confusões... numa dança de palcos fantasiados que aos poucos se transformam em realidade, perante a minha espupefacção... e a minha vida sedenta de beleza vai-se enchendo dela... não escondo nada do vento nem da chuva... tudo o que precisar ir vá, sem dó nem piedade... não desejo nada que pertença a esse passado, nada que não me pertença a mim.
Abandono quem fui aqui e deixo-me acariciar pelas águas que choram algures...
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Prosa poética inspirada após as leitura do poema
"Abando-me aqui" de Piedade Araújo Sol http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/
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Autora :Porcelain Doll
Foto:Q

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Um som terrível no escuro

Nesse Setembro de 75, dois jovens portugueses, colegas de profissão, aproveitavam as férias e um Dyane comprado há pouco para espraiarem a liberdade por paragens além-fronteiras. Levavam uma tenda canadiana e acampavam onde calhava. Viajavam ao sabor dos acontecimentos, confiados nas benevolências do acaso.

Em Vitória, já país basco, a notícia do dia era a morte de mais um «carabinero». Pressentindo a morte iminente de Franco, os separatistas da ETA intensificavam o número de atentados.

Petiscaram num bar e voltaram à estrada procurando um local para acampar. Uns quilómetros à frente, encontraram um terreno plano ao lado da estrada e entraram. Ainda de faróis acesos e motor a trabalhar, foram rapidamente cercados por vários guardas que iam a passar em dois jipes. Tentaram explicar-se em espanhol, mas, porque falassem suficientemente bem, porque a matrícula começava pelas mesmas letras que as de Burgos, ou pela ideia apetecível aos militares de que tinham apanhado dois terroristas, não estava a ser fácil convencê-los da origem lisboeta dos intrusos.

Nisto, chegaram mais guardas comandados por um graduado. Estes, nem dúvidas tiveram. Ao verem aquele aparato, saltaram dos jipes em atitude de grande sanha bélica e, sem darem tempo a qualquer explicação, gritaram que os suspeitos saíssem do carro. Tensos. Os jovens saíram, ofuscados pela luz forte dos faróis, para logo ouvirem ordens de «manos en el aire!», quase abafadas pelo matraquear metálico de muitas culatras puxadas atrás.

Quem vos conta isto levantou as mãos lentamente, virou-se e apoiou-as no carro, rodando o rosto para o lado contrário ao dos guardas, para que nem o olhar pudesse fornecer qualquer pretexto ao nervosismo revanchista dos carabineiros. Durante uma eternidade de segundos, esperou ser trespassado, senão por um sem-número de balas à queima-roupa, com certeza por aquela que só obedece ao diabo e que é disparada até pelas espingardas descarregadas.

[Publicado no blogue Universos Assimétricos]



Um Lobo e um Barco encontram-se em alto mar.

(Pausa)

Nem o Barco sabe o nome do Lobo,

Nem o Lobo sabe o nome do Barco...